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Menino, como todos os moleques da
minha aldeia, eu tinha um sonho
recorrente: arribar para São Paulo,
ganhar dinheiro graúdo, botar um
dente de ouro, comprar uma sanfona
vistosa e regressar à terrinha
falando o dialeto “paulistês”.Na
verdade, o que eu queria mesmo era
encontrar um meio de chamar a
atenção das mulheres, ariscas como
juritis novas. Com o tempo, o irmão
mais velho foi, os primos foram, os
amigos foram, e eu, cada vez mais
fincado em minha aldeia, não fui.
Descobri minha indeclinável vocação
para pedra, pedra recoberta de limo
de tanto não rolar. Os outros iam e
voltavam, trazendo ou não sanfona.
Eu, a exemplo de seu Liberato,
irremovível, permanecia na aldeia.
Havia entre mim e o chão um grude,
um visgo que me impediam de alçar
vôo...
Um
belo dia, o irmão regressou
trazendo uma sanfona Scandalli,
vermelha como brasa de angico;
fogosa como uma potranca no cio.
O
irmão não tinha dente de ouro, mas
usava um bigodinho atrevido,
empapava o cabelo de
Quina-Petróleo e conquistava
as mulheres com a mesma facilidade
com eu fisgava piabas no velho
açude da Aldeia. Decidi, então,
tornar-me sanfoneiro. Abarquei a
sanfona, judiei dela por duas ou
três semanas e não saí do dó. Uma
noite, ouvi, no rádio de um
vizinho, o Sivuca executar um
frevo. Morreu ali o sanfoneiro que
despontava em mim. Desacorçoado,
percebi que, por mais que eu
tentasse, não chegaria àquele nível
de excelência e menos que aquilo
não me interessava.
Antes que me perguntem
por que estou me lembrando dessas
bobagens agora, explico: na semana
passada, por muito pouco, não matei
um velho e querido sanfoneiro, o
Hermínio Moraes. Se vocês ainda se
lembram, publiquei, neste espaço,
uma crônica “sentimentosa” sobre
alguns amigos são-raimundenses que,
sem minha permissão, partiram para
o reino do Benvirá. Dois
deles – o Egídio Nascimento e o
Hamilton Barreto – eram músicos.
Quando a crônica foi publicada,
descobri que esquecera justamente
o Hermínio, um cabra da peste que,
escorraçado de Pernambuco,
perambulou pelo mundo afora até
aportar em São Raimundo Nonato. Não
me lembro quem prestou o desserviço
de avisar-me que o velho sanfoneiro
morrera no final do ano passado. Se
bem me lembro, mandei até rezar
missa pela alma do infeliz.
Chego a São Raimundo e
a primeira notícia que recebo do
Jorginho França é a de que o
Hermínio, depois de uma cirurgia de
catarata, já está pronto para fazer
o que mais sabe: tocar bem. Fiquei
tão feliz que mal me contive. O
Hermínio é nosso parceiro há muito
tempo. Em Teresina, num show
inesquecível, tocou o
“Brasileirinho” com o violonista
Erisvaldo Borges, coisa de saltar
faíscas no ar... O Hermínio, antes
que eu o “matasse”, estava escalado
para gravar conosco o CD “A Cara
Alegre do Piauí”, que deve sair no
segundo semestre deste ano.
Incontinenti, saí com o Jorginho à
caça do cabra. Encontrei-o meio
baleado, mas vivo e lampeiro. Magro
como um cancão depenado, com uns
óculos de cego de feira, Hermínio
me prometeu que não morrerá antes
de gravar o CD e ouvir “sua”
música na Rádio Alternativa. Se ele
descumprir o que prometeu, aí eu
volto a São Raimundo acabo com a
raça dele.
Cineas Santos
Professor |