|
Houve um tempo em que a distância
que separava Teresina de São
Raimundo Nonato não excedia a 540
Km. As estradas, quase sempre
ruins, não me impediam de sair da
capital às 6 horas e, ao meio-dia,
estar sendo agraciado com o melhor
sorriso do Paredão, o amigo
mais antigo. Depois de um abraço
generoso, meu irmão de cor e
crença, passava a mão em minha
carapinha recoberta de algodão e
perguntava: - É tapioca? A
resposta saía de bate-pronto: -
É giz, nego burro! E ríamos
como dois moleques vadios que, um
dia, fomos. Um pouco mais adiante,
num ponto eqüidistante entre o
“Grupo Escolar Padre Domingo da
Conceição” e o “Ginásio Dom
Inocêncio”, dona Purcina já
me esperava com o café quentinho e
o cafuné suave, que só as mães
sabem fazer. Num canto qualquer da
casa, com o seu cheiro
inconfundível, Edison do
Ministério de Nossa Senhora
me jogava uma chula, coisa do tempo
em que os bichos falavam...
À tarde, a caminho do
centro da cidade, uma parada na
casa do “compadre” Egídio
para dois dedos prosa. O velho
sanfoneiro falava pouco, mas
escondia vasta sabença na cabeça
miúda. Para minimizar os estragos
que a água da cidade normalmente
provoca em minhas entranhas, eu
dava uma esticada até a Farmácia
do Maninho para comprar “o
alívio antes que a dor chegasse”.
Invariavelmente, falávamos das
agruras dos nossos times: ele,
sofredor do Fluminense desde
sempre; eu, eterno perdedor do
Flamengo. A rivalidade entre as
torcidas fanáticas não nos
contagiava. Proseávamos como
irmãos. A última vez que estive com
ele, dei-lhe uma caneca com o
escudo do Tricolor das Laranjeiras.
Agradeceu-me visivelmente
emocionado.
À noitinha, se o tempo
estivesse bom, era a vez de visitar
o velho Hamilton, delgado
como a haste de um lírio, com
aquele toco de cigarro sem filtro
eternamente pendurado na boca.
Falava baixo: poupava fôlego para
soprar os “molhos de ferro”, como
apelidava, carinhosamente, seus
velhos saxes. Às vezes, parava a
conversa para assobiar um chorinho
que “estava no forno”.
De repente, esses
amigos se foram sem minha
permissão. Alguns nem tiveram a
delicadeza de se despedir de mim.
Purcina e Paredão,
por exemplo, partiram juntos,
deixando um vazio em minha vida que
não se preenche nunca...
É certo que, sem eles,
a vida continua. A cidade não
parou: está cada vez mais acesa,
frenética, haja vista o barulho
infernal das motos; a laúza dos
carros de som anunciando bandas de
forró e, principalmente, a arenga
dos políticos, apontando com o dedo
sujo a sujeira na cara dos
adversários.
Mas há também os que
trabalham duro, ganham a vida
honestamente, amam e sofrem por
essa cidade estranha. Quanto a mim,
só posso dizer que já não sei
quantos quilômetros separam
S.R.Nonato de Teresina. A cidade
parece distanciar-se de mim à
medida que eu avanço em sua
direção. Há distâncias que os
velocímetros dos automóveis não
registram. A distância entre a
saudade e a eternidade, por
exemplo, só pode ser medida com a
régua da tristeza. E isso dói.
Cineas Santos
Professor |