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Um pouco sobre mim

Cineas das Chagas Santos nasceu em Campo Formoso, município de Caracol (PI), em setembro de 48. Vive em Teresina desde 65. Professor, editor e livreiro, fundou, com alguns companheiros de geração, o jornal alternativo “Chapada do Corisco” (76/77). É proprietário da Oficina da Palavra e coordena o grupo A Cara Alegre do Piauí. Publicou: Miudezas em Geral (poesia); Tinha que Acontecer (contos); ABC da Ecologia (cordel); Aldeia Grande (humor) e o Menino que Descobriu as Palavras (infantil).

 


Da Relatividade de Tudo

cineasantos@hotmail.com


            Houve um tempo em que a distância que separava Teresina de São Raimundo Nonato não excedia a 540 Km. As estradas, quase sempre ruins, não me impediam de sair da capital às 6 horas e, ao meio-dia, estar sendo agraciado com o melhor sorriso do Paredão, o amigo mais antigo. Depois de um abraço generoso, meu irmão de cor e crença, passava a mão em minha carapinha recoberta de algodão e perguntava: - É tapioca? A resposta saía de bate-pronto: - É giz, nego burro! E ríamos como dois moleques vadios que, um dia, fomos. Um pouco mais adiante, num ponto eqüidistante entre o “Grupo Escolar Padre Domingo da Conceição” e o “Ginásio Dom Inocêncio”, dona Purcina já me esperava com o café quentinho e o cafuné suave, que só as mães sabem fazer. Num canto qualquer da casa, com o seu cheiro inconfundível, Edison do Ministério de Nossa Senhora me jogava uma chula, coisa do tempo em que os bichos falavam...

 

            À tarde,  a caminho do centro da cidade, uma parada na casa do “compadre” Egídio para dois dedos prosa. O velho sanfoneiro falava pouco, mas escondia vasta sabença  na cabeça miúda. Para minimizar os estragos que a água da cidade normalmente provoca em minhas entranhas, eu dava uma esticada até a Farmácia do Maninho para  comprar “o alívio antes que a dor chegasse”. Invariavelmente, falávamos das agruras dos nossos times: ele, sofredor do Fluminense desde sempre; eu, eterno perdedor do Flamengo. A rivalidade entre as torcidas fanáticas não nos contagiava. Proseávamos como irmãos. A última vez que estive com ele, dei-lhe uma caneca com o escudo do Tricolor das Laranjeiras. Agradeceu-me visivelmente emocionado.

 

            À noitinha, se o tempo estivesse bom, era a vez de visitar o velho Hamilton, delgado como a haste de um lírio, com aquele toco de cigarro sem filtro eternamente pendurado na boca. Falava baixo: poupava fôlego para soprar os “molhos de ferro”, como apelidava, carinhosamente, seus velhos saxes. Às vezes, parava a conversa para assobiar um chorinho que “estava no forno”.

 

            De repente, esses amigos se foram sem minha permissão. Alguns nem tiveram a delicadeza de se despedir de mim. Purcina e Paredão, por exemplo, partiram juntos, deixando um vazio em minha vida que não se preenche nunca...

 

            É certo que, sem eles, a vida continua. A cidade não parou: está cada vez mais acesa, frenética, haja vista o barulho infernal das motos; a laúza dos carros de som anunciando bandas de forró e, principalmente, a arenga dos políticos, apontando com o dedo sujo a sujeira na cara dos adversários.

 

            Mas há também os que trabalham duro, ganham a vida honestamente, amam e sofrem por essa cidade estranha. Quanto a mim, só posso dizer que já não sei quantos quilômetros separam S.R.Nonato de Teresina. A cidade parece distanciar-se de mim à medida que eu avanço em sua direção. Há distâncias que os velocímetros dos automóveis não registram. A  distância entre  a saudade  e a eternidade, por exemplo, só pode ser medida com a régua da tristeza. E isso dói.

           

Cineas Santos

Professor

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Cineas Santos