A
recente divulgação dos dados do
Índice Geral de Cursos (IGC) pelo
INEP/MEC trouxe-nos dados
entristecedores e preocupantes não
somente para os estudantes e
professores como para toda a
sociedade. Esses dados revelam-nos
a situação crítica que se encontra
a formação de professores para a
educação básica no Brasil e os
dilemas e desafios do campo da
formação.
O
fato de termos o pior curso de
Pedagogia do Brasil é revelador de
uma situação de degradação e
desvalorização da educação e da
profissão docente que vem se
agravando nos últimos anos em nosso
país. Essa situação precisa ser
analisada e compreendida no
contexto atual da sociedade
brasileira, considerando-se as
condições de desigualdade e
exclusão típicas do capitalismo, as
políticas educacionais
implementadas nos últimos anos e as
condições concretas de
profissionalização e o exercício da
docência nas escolas públicas.
Com
efeito, esse resultado vergonhoso
resulta de uma série de fatores,
incluindo fatores de natureza
acadêmica e institucional e fatores
estruturais relacionados às
condições que historicamente vem
degradando e desvalorizando a
educação e a profissão docente.
A
Universidade Estadual do Piauí
(UESPI) passou por uma grande
expansão a partir da segunda metade
da década de 90, com a
interiorização de cursos,
principalmente de formação de
professores, sem o cumprimento de
padrões míninos de qualidade
acadêmica. Um processo de
interiorização que mais atendeu a
interesses político-partidários,
tendo como justificativa legal uma
equivocada interpretação da LDB, no
que se refere à exigência de nível
superior para o exercício da
docência na educação básica.
Dessa forma foram criados inúmeros
cursos de Pedagogia e outras
licenciaturas em campis e
núcleos universitários em todo o
estado e até mesmo em outros
estados sem o investimento
financeiro necessário.
É
inconteste, como relatou à
coordenadora do Curso no campus de
São Raimundo Nonato, as precárias
condições de formação dos
estudantes, não somente de
Pedagogia. No caso do curso de
pedagogia o campus não possui um
quadro de professores efetivos e
com titulação em nível de mestrado
e doutorado, necessário para o
atendimento das exigências legais
de pesquisa, ensino e extensão, sem
falar nas péssimas condições
salariais e de precarização do
trabalho docente, com professores
trabalhando com contratos
temporários de um ano. O campus
também não dispõe de biblioteca nos
padrões exigidos para um curso de
graduação e salas de aulas com
recursos multimídia entre outros
fatores, sendo totalmente esquecido
pela administração superior da
UESPI.
Nesse contexto, as políticas
educacionais implementadas nos
últimos anos tem sido marcadas pela
flexibilização e diversificação das
condições de oferta de cursos de
formação de professores, com uma
tendência evidente de aligeiramento
da formação, que secundarizam a
formação teórica, com o predomínio
de concepções neo tecnicistas e
pragmáticas que transformam o
professor num prático, num
tarefeiro. Um profissional que
apenas deve “preparar” os alunos
para as provas e exames realizados
pelo MEC e sem a base intelectual
necessária para uma prática
pedagógica emancipatória.
As
entidades do campo educacional, em
especial a ANFOPE (Associação
Nacional pela Formação dos
Profissionais da Educação), a mais
de trinta anos vêm denunciado as
precárias condições da formação de
professores no Brasil e defendido
uma política global de formação dos
profissionais da educação que
contemple de forma articulada e
prioritária a formação inicial e
continuada com condições adequadas
de trabalho, piso salarial
profissional nacional e carreira,
com a concepção sócio-histórica do
educador.
Entender esse contexto em que
inúmeras relações convergem para a
precária formação de professores no
Brasil, é necessário para não
criarmos ilusões de soluções fáceis
para os problemas da educação e da
formação.
As
tendências das políticas
educacionais em curso, de um
governo federal de base popular,
mas que deu continuidade às
políticas neoliberais do governo
anterior, convergem para um cenário
contrário às reivindicações
históricas do Movimento Nacional
dos Educadores. Dessa forma os
estudantes do campus de São
Raimundo Nonato precisam sair do
estado de letargia em que se
encontram, mobilizando-se e
exigindo ações concretas e efetivas
da administração superior da UESPI
no sentido de garantir condições
institucionais que propiciem a
qualidade acadêmica dos cursos.
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