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Um pouco sobre mim

Dispenso apresentações formais, pois São Raimundo Nonato me conhece. Nesta cidade nasci, cresci e residi até muito recentemente. Fui professor da rede estadual e municipal de ensino, professor da UESPI e atualmente atuo na implementação e acompanhamento de programas e projetos educacionais no Ministério da Educação em Brasília. Sou Especialista em Educação a Distância pela Universidade de Brasília (UnB) e mestrando do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília (UCB). Militante e defensor de uma educação pública, gratuita, republicana e com qualidade socialmente referenciada. Neste espaço pretendo trazer temas e questões relevantes que possam contribuir com a reflexão, problematização e compreensão da educação enquanto prática social e direito de cidadania.

 

 


O Curso de Pedagogia de São Raimundo Nonato e os (des) caminhos da formação docente no Brasil

bartolomeu.sousa@gmail.com


A recente divulgação dos dados do Índice Geral de Cursos (IGC) pelo INEP/MEC trouxe-nos dados entristecedores e preocupantes não somente para os estudantes e professores como para toda a sociedade. Esses dados revelam-nos a situação crítica que se encontra a formação de professores para a educação básica no Brasil e os dilemas e desafios do campo da formação.

 

O fato de termos o pior curso de Pedagogia do Brasil é revelador de uma situação de degradação e desvalorização da educação e da profissão docente que vem se agravando nos últimos anos em nosso país. Essa situação precisa ser analisada e compreendida no contexto atual da sociedade brasileira, considerando-se as condições de desigualdade e exclusão típicas do capitalismo, as políticas educacionais implementadas nos últimos anos e as condições concretas de profissionalização e o exercício da docência nas escolas públicas.

 

Com efeito, esse resultado vergonhoso resulta de uma série de fatores, incluindo fatores de natureza acadêmica e institucional e fatores estruturais relacionados às condições que historicamente vem degradando e desvalorizando a educação e a profissão docente.

 

A Universidade Estadual do Piauí (UESPI) passou por uma grande expansão a partir da segunda metade da década de 90, com a interiorização de cursos, principalmente de formação de professores, sem o cumprimento de padrões míninos de qualidade acadêmica. Um processo de interiorização que mais atendeu a interesses político-partidários, tendo como justificativa legal uma equivocada interpretação da LDB, no que se refere à exigência de nível superior para o exercício da docência na educação básica.

 

Dessa forma foram criados inúmeros cursos de Pedagogia e outras licenciaturas em campis e núcleos universitários em todo o estado e até mesmo em outros estados sem o investimento financeiro necessário.

 

É inconteste, como relatou à coordenadora do Curso no campus de São Raimundo Nonato, as precárias condições de formação dos estudantes, não somente de Pedagogia. No caso do curso de pedagogia o campus não possui um quadro de professores efetivos e com titulação em nível de mestrado e doutorado, necessário para o atendimento das exigências legais de pesquisa, ensino e extensão, sem falar nas péssimas condições salariais e de precarização do trabalho docente, com professores trabalhando com contratos temporários de um ano. O campus também não dispõe de biblioteca nos padrões exigidos para um curso de graduação e salas de aulas com recursos multimídia entre outros fatores, sendo totalmente esquecido pela administração superior da UESPI.

 

Nesse contexto, as políticas educacionais implementadas nos últimos anos tem sido marcadas pela flexibilização e diversificação das condições de oferta de cursos de formação de professores, com uma tendência evidente de aligeiramento da formação, que secundarizam a formação teórica, com o predomínio de concepções neo tecnicistas e pragmáticas que transformam o professor num prático, num tarefeiro. Um profissional que apenas deve “preparar” os alunos para as provas e exames realizados pelo MEC e sem a base intelectual necessária para uma prática pedagógica emancipatória.

 

As entidades do campo educacional, em especial a ANFOPE (Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação), a mais de trinta anos vêm denunciado as precárias condições da formação de professores no Brasil e defendido uma política global de formação dos profissionais da educação que contemple de forma articulada e prioritária a formação inicial e continuada com condições adequadas de trabalho, piso salarial profissional nacional e carreira, com a concepção sócio-histórica do educador.

 

Entender esse contexto em que inúmeras relações convergem para a precária formação de professores no Brasil, é necessário para não criarmos ilusões de soluções fáceis para os problemas da educação e da formação.

 

As tendências das políticas educacionais em curso, de um governo federal de base popular, mas que deu continuidade às políticas neoliberais do governo anterior, convergem para um cenário contrário às reivindicações históricas do Movimento Nacional dos Educadores. Dessa forma os estudantes do campus de São Raimundo Nonato precisam sair do estado de letargia em que se encontram, mobilizando-se e exigindo ações concretas e efetivas da administração superior da UESPI no sentido de garantir condições institucionais que propiciem a qualidade acadêmica dos cursos.

 

Bartolomeu Sousa
Especialista em Educação a Distância

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Está coluna é de inteira responsabilidade do colunista Bartolomeu Sousa